Turismo de parto: vale a pena viajar para ter filhos nos Estados Unidos?

Turismo de parto: vale a pena viajar para ter filhos nos Estados Unidos?

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Entenda a dinâmica do parto nos Estados Unidos, as diferenças do sistema de saúde e os fatores que levam brasileiras a escolher o país

Introdução A experiência de ter filhos nos EUA revela particularidades do sistema de saúde, como consultas breves e priorização do parto vaginal. O texto explora a “mobilidade gestacional”, motivada pela cidadania e diferenças em custos e assistência em comparação ao Brasil, oferecendo uma análise das implicações dessa escolha.

Principais Tópicos Consultas obstétricas nos EUA são rápidas, exigindo preparo das gestantes. Sistema americano prioriza o parto vaginal, contrastando com a alta taxa de cesáreas no Brasil. A busca pela cidadania americana impulsiona a “mobilidade gestacional”. Financiamento do parto nos EUA envolve seguros privados, Medicaid ou pagamento particular. Qualidade da assistência varia nos EUA, com mortalidade materna menor, mas desigualdades evidentes.

Consultas obstétricas nos EUA são rápidas, exigindo preparo das gestantes.

Sistema americano prioriza o parto vaginal, contrastando com a alta taxa de cesáreas no Brasil.

A busca pela cidadania americana impulsiona a “mobilidade gestacional”.

Financiamento do parto nos EUA envolve seguros privados, Medicaid ou pagamento particular.

Qualidade da assistência varia nos EUA, com mortalidade materna menor, mas desigualdades evidentes.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Em 2018, a empresária brasileira Taciana Klein Lossio, hoje com 39 anos, mudou-se para os Estados Unidos para expandir os negócios. Desde então, teve dois filhos no país: Daniel, nascido em 2020, e Isabella, em 2024.

Foi assim, ao longo das duas gestações, que ela passou a conhecer de perto o funcionamento do sistema de saúde e obstetrícia norte-americano. Segundo a empreendedora, a qualidade do serviço que recebeu não foi ruim, mas a dinâmica das consultas pode surpreender quem veio do Brasil.

“ São muito rápidas “, relata. “Você chega esperando uma consulta de meia hora, onde irão te explicar as coisas, mas isso não acontece . A enfermeira checa os seus sinais vitais, pressão arterial, etc., e, em seguida, a médica examina você em cinco minutos .”

Ainda na primeira gravidez, ela teve de desenvolver uma estratégia para aproveitar esse tempo enxuto: para não esquecer nada, passou a registrar no celular todas as dúvidas que surgiam entre um atendimento e outro.

“Ela perguntava: ‘você tem alguma dúvida?’. E eu tinha todas ! Era a minha primeira gestação. Mas, se naqueles cinco minutos eu não me lembrasse do que queria saber, a médica ia embora e acabou”, diz. “É um sistema muito objetivo .”

De fato, para além da objetividade, muitos outros choques culturais podem aparecer para quem decide ter um filho em solo de outro país. Ainda assim, esse é o sonho de muitos brasileiros — e não apenas de quem, como Taciana, já vivia no território por outros motivos.

Pois é. Todos os anos, gestantes atravessam fronteiras especificamente para dar à luz. É o chamado “ turismo de parto “ ou, em melhores termos, mobilidade gestacional , um tipo de viagem, pensada em família, que costuma ter os Estados Unidos como destino principal.

O tema voltou a ter visibilidade após famosas como a cantora Ludmilla e a influenciadora Mari Maria terem escolhido o país para o nascimento de seus filhos.

Mas a escolha não está restrita às celebridades. Aliás, o interesse também movimenta um mercado especializado . Por aqui, não faltam os chamados “ programas de maternidade internacional “.

Para ter ideia, somente a organização “ Ser Mamãe em Miami “, que oferece suporte e atendimento médico a brasileiras interessadas em ter filhos no estado americano, afirma já ter acompanhado mais de dois mil partos internacionais.

O ponto é que, embora muitas famílias associem essa escolha à qualidade da assistência médica , especialistas afirmam que o principal fator pode ser outro: bebês nascidos em território americano podem receber a cidadania do país.

Mas, pensando em saúde, será que vale mesmo a pena? E, afinal, como é dar à luz nos Estados Unidos? Descubra a seguir.

Como funciona o parto nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, a gestante costuma ser acompanhada por um obstetra ou por uma enfermeira obstétrica , dependendo do perfil da gravidez e da preferência da paciente.

O parto é realizado, em sua maioria, em hospitais, mas centros de parto independentes e até o domicílio são opções para gestações de baixo risco.

Além disso, um aspecto chamativo é que, no país, doulas certificadas participam de muitos partos de baixo risco, enquanto, no Brasil, o cuidado é mais centrado no médico obstetra.

Existem, ainda, algumas outras diferenças importantes entre as duas nações. Uma das principais é a valorização do parto vaginal . “Aqui, eles [os americanos ] priorizam o parto normal, a não ser que exista alguma indicação [ clínica ] para a cesárea. Acho que é o contrário do Brasil “, comenta Taciane.

De fato, a percepção da empresária encontra respaldo nas estatísticas. É que, há décadas, o Brasil figura entre os países com as maiores taxas de cesariana do mundo.

Essa alta, por sua vez, é contrária às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) , que defende que as cesáreas correspondam apenas a 10 % ou 15 % de todos os partos realizados no planeta.

Pode parecer radical, mas, para a instituição, o parto cirúrgico deve ser adotado somente quando há necessidade, pois pode causar complicações significativas.

Mesmo assim, segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), o percentual de cesáreas no Brasil só cresce. Passou de 55,4% em 2016 para cerca de 57% em 2021 , por exemplo. Na rede privada sozinha, eles podem responder por 80% dos partos. Ao menos é o que já dizia um clássico estudo publicado em 2008.

Nos Estados Unidos, os números estão bem abaixo das brasileiros. Em 2021, variavam de aproximadamente 24,6% em Dakota do Sul, o estado com menor índice, até, no máximo, 38%, registrado no Mississippi, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) do país .

Esse contraste não significa, porém, que o atendimento obstétrico americano seja necessariamente superior ao brasileiro.

Na verdade, segundo um consenso publicado pelas academias nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina do país em 2020, os Estados Unidos concentram hospitais altamente tecnológicos,  mas a qualidade da assistência varia bastante entre estados, cidades e instituições.

Por exemplo, ao comparar hospitais considerados de baixo e alto desempenho no estado da Califórnia, um estudo da California Health Care Foundation notou que a episiotomia foi realizada em 46% dos partos nos hospitais de pior desempenho, contra apenas 2% nos de melhor avaliação.

Esse procedimento consiste em um corte cirúrgico feito no períneo para ampliar a abertura vaginal durante o parto. Atualmente, ele é recomendado apenas em situações muito específicas, já que seu uso rotineiro não é respaldado pela ciência e pode ser considerado violência obstétrica .

Até mesmo um relatório das Academias Nacionais de Ciências dos EUA destaca que os níveis de assistência materna são distribuídos de forma desigual pelo país, obrigando algumas gestantes a serem transferidas entre hospitais quando surgem complicações, por falta de recursos especializados. Portanto, a realidade é também muito individual.

Por sorte, para a empresária Taciane, a experiência foi positiva , embora considere que os cuidados foram rápidos. “No parto normal, você ganha o bebê em uma sala bem simples . Depois, nos primeiros dias com o neném, eles deixam você o mínimo de tempo internada possível”, comenta.

Durante o trabalho de parto, quem ficou ao seu lado o tempo todo foi a equipe de enfermagem . A obstetra entrou em cena quando o nascimento estava prestes a acontecer.

Relembrando, ela conta que, depois que os seus bebês nasceram, começaram as orientações sobre amamentação , feitas por uma consultora especializada . Já para receber alta, os pais só puderam sair do hospital com a primeira consulta no pediatra já agendada.

Também antes de ir para casa, os recém-nascidos ainda receberam parte das primeiras vacinas e passaram pelos exames de rotina, como o teste do pezinho .

+Leia também: Turismo de parto no Brasil: por que estrangeiras estão cruzando o mundo para ter filhos no país

Como o parto é financiado?

A forma de financiamento é um aspecto que influencia diretamente os cuidados maternos nos Estados Unidos. Enquanto no Brasil é possível fazer todo o acompanhamento gratuitamente, via Sistema Único de Saúde (SUS) , lá a maioria dos serviços são particulares.

Para isso, a maior parte das mulheres utiliza seguro de saúde privado , geralmente oferecido pelo empregador ou contratado de forma individual, embora ainda seja comum haver despesas do próprio bolso, como franquias e coparticipações.

Outra opção é o Medicaid , programa público destinado a pessoas e famílias de baixa renda, financiado conjuntamente pelos governos federal e estaduais.

Para as gestantes elegíveis, ele cobre, no mínimo, o pré-natal, o parto e parte dos cuidados no pós-parto , embora as regras variem conforme o estado. Em geral, os cuidados para o pós-parto financiados pelo Medicaid têm duração máxima de dois meses .

Há, ainda, o Medicare , seguro público voltado para pessoas com mais de 65 anos ou com determinadas deficiências, que pode atender um número restrito de gestantes.

Já quem não possui cobertura de saúde — caso de muitas estrangeiras que viajam aos EUA para dar à luz — precisa recorrer ao pagamento particular , arcando integralmente com os custos de consultas, exames, internação e parto.

Vale a pena?

Não existe uma resposta universal para a pergunta “vale a pena?”. A decisão depende dos objetivos, das condições financeiras, das circunstâncias da gestação e dos valores de cada família.

Do ponto de vista da assistência, vale contar que os Estados Unidos apresentam uma taxa de mortalidade materna menor que a do Brasil. Segundo a OMS, são cerca de 17 mortes por 100 mil nascidos vivos , contra 67 no território nacional.

Ainda assim, outros dados, do CDC, mostram que os números podem variar muito de acordo com o recorte. Existe, por exemplo, uma importante desigualdade racial no país: em 2023, a mortalidade materna foi de 14,5 óbitos por 100 mil nascidos vivos entre mulheres brancas e de 50,3 entre mulheres negras .

No Brasil, apesar de existirem, especialmente, desigualdades regionais de acesso, o SUS garante gratuitamente o acompanhamento da gestação, do parto e do pós-parto.

Para falar a verdade, a assistência começa bem antes: até mesmo o teste de gravidez pode ser realizado de graça em qualquer Unidade Básica de Saúde (UBS).

Após o diagnóstico, a mulher tem direito às consultas de pré-natal e a rede pública inclui mais de 95% dos exames e procedimentos recomendados para o acompanhamento da gravidez.

O sistema nacional também oferece exames, medicamentos, vacinas, assistência ao parto e acompanhamento da mãe e do bebê após o nascimento.

É o que explica a médica Eura Martins Lage, membro da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

“Também são estimuladas práticas que tornam o nascimento mais seguro e acolhedor “, acrescenta. São exemplos a presença de um acompanhante escolhido pela mulher, o contato precoce entre mãe e bebê e o incentivo à amamentação ainda na primeira hora de vida.

Uma vez no mundo, o bebê, por sua vez, passa a ser acompanhado regularmente nas unidades de saúde, onde são monitorados seu crescimento, desenvolvimento e calendário vacinal .

É por isso que, de novo, a escolha vai além da comparação entre os dois sistemas de saúde. Ela deve considerar fatores como segurança, custos, rede de apoio, expectativas da família e o que faz mais sentido para sua realidade.

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