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Trabalho destaca que índice de desconforto pode ser 16 vezes maior do que o sugerido nas diretrizes nacionais
A dor na colocação de dispositivos intrauterinos (DIU) é uma das reclamações mais recorrentes de mulheres que já recorreram a esse método contraceptivo .
Agora, um estudo brasileiro publicado mais cedo neste ano indica que o problema pode ser ainda mais comum do que se pensava: enquanto o Ministério da Saúde estima que apenas 5% das pacientes sofrem com algum tipo de desconforto mais sério após a colocação do DIU, na realidade esse número poderia ser até 16 vezes maior.
O trabalho , assinado por pesquisadores da Unicamp, foi difundido em abril pelo International Journal of Gynecology & Obstetrics , uma revista científica especializada da área.
O que o estudo descobriu
A pesquisa acompanhou mais de 7 mil inserções de DIU realizadas no Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (Caism), da Unicamp, entre 2022 e 2024.
Imediatamente após o procedimento, as pacientes eram questionadas sobre o nível de dor que sentiam , em uma escala de 0 a 10, que posteriormente foi convertida em classificações de “leve”, “moderada” ou “severa”.
Os resultados revelaram um contraste enorme entre a realidade percebida pelas próprias mulheres e as estatísticas oficiais: 81% das pacientes afirmaram sentir dor moderada ou severa , índice 16 vezes maior do que as estimativas do Ministério da Saúde. Desse grupo, 54% disseram sentir dor “severa”, o nível mais elevado da escala.
Por outro lado, só 3% disseram não sentir nenhuma dor. Outras 28% tiveram dor leve.
Segundo os pesquisadores, o descompasso entre a dor real e aquele estimada pelos manuais pode estar afetando até mesmo a qualidade do atendimento recebido: embora 8 em cada 10 pacientes tenham sentido dores mais fortes, apenas 6% das pacientes observadas no estudo receberam algum tipo de medicação para aliviar o problema.
“Recomendamos que as diretrizes nacionais sejam atualizadas para refletir experiências reais de dor, embasar práticas de manejo da dor e promover o aconselhamento centrado no paciente no âmbito da assistência contraceptiva”, conclui o trabalho.
Como funciona o DIU
O dispositivo intrauterino é um método anticoncepcional de longa duração e altamente eficaz, com índice de falha calculado entre um a dois casos a cada mil. O DIU pode ser de cobre ou hormonal , e nos dois casos o princípio é semelhante: criar um ambiente pouco propício aos espermatozoides, além de dificultar a fertilização e a eventual fixação do óvulo na parede uterina.
Apesar da segurança do método e de sua disponibilização no Sistema Único de Saúde (SUS), ele ainda é relativamente pouco utilizado no Brasil, em parte devido aos relatos menosprezados de desconforto associado à colocação do DIU. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, o dispositivo é o método contraceptivo escolhido por apenas 4% das pessoas, contra 40% que recorrem à pílula anticoncepcional .
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