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Na vida desta escritora, o que parecia ser uma gripe pós-viagem terminou em uma peregrinação e na descoberta de uma bactéria pouco conhecida
Enquanto a enfermeira me olha, interrogativa, rememoro os muitos passos até o diagnóstico . Foram dez meses de inúmeros exames até chegar à anestesia geral, que permitiu a broncoscopia — exame que detectou, finalmente, a presença da Mycobacterium avium , ou MAC , nos meus pulmões.
Depois do resultado positivo, obtido no Hospital das Clínicas de São Paulo, a vigilância sanitária da capital paulista me telefonou para agendar uma consulta de emergência para o dia seguinte no posto de saúde.
“ Não falte ”, reforçou o atendente.
Tudo começou com uma infecção respiratória, como uma gripe , na volta de uma viagem à Bahia. Febre vai, febre vem, antibiótico receitado e concluído, e, passados alguns dias, voltam os sintomas .
Observo o marrom avermelhado da mancha que expeli sobre a pia do banheiro , tiro uma foto e envio para meu médico de família. “ Nada bom ”, ele responde.
Saio da consulta marcada pela vigilância sanitária numa Unidade Básica de Saúde (UBS) entendendo que não importa se contraí a bactéria na Bahia ou em São Paulo. A doença que eu tinha poderia ficar incubada quanto quisesse. O que importava eram as hipóteses diagnósticas: pneumonia , tuberculose , a tal Mycobacterium avium e até câncer.
Tive que esperar três meses depois da broncoscopia para descobrir — o tempo necessário para realizar a cultura dos micro-organismos. Tremo ao receber o resultado e ler o nome avium , eufemismo em latim para pombas doentes.
Esse era o diagnóstico que tinham alertado o HC, a vigilância sanitária, a UBS, e que me levou, finalmente, ao Instituto Clemente Ferreira, diante de uma médica que analisa imagens dos meus pulmões e aponta na tela do computador os brotamentos em forma de árvore associados à doença: “ São estas manchas bem aqui, está vendo? ”
A MAC, segundo a doutora, quer se expandir e expandir e vai paralisar minha respiração num dia como outro qualquer, enquanto dirijo ou caminho até a padaria. Em quanto tempo? É imprevisível e não importa , ela diz. Temos tratamento e vamos começar já.
O Clemente Ferreira foi construído na década de 1950 para tratar tuberculose . Tem corredores largos com pisos de ladrilho floral, janelas enormes, gradis de ferro trabalhado e uma pequena praça onde vive uma enorme sibipiruna, árvore nativa brasileira que esbanja flores amarelas.
Já a MAC passou a ser estudada durante a epidemia de Aids nos anos 1980, quando os pacientes não respondiam ao tratamento da tuberculose — complicação frequente da infecção pelo HIV — e acabavam morrendo.
Descobriu-se que a MAC causa uma doença parecida com a tuberculose , mas o micro-organismo é diferente, o que, portanto, exige outros antibióticos. E o tratamento só é administrado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) .
“A senhora é soropositiva ?”, pergunta a médica. Respondo que não. “Bebe?” Socialmente. “Se exercita regularmente?” Sim. Ao final da consulta, recebo os remédios e passo por três mesas com três enfermeiras diferentes que explicam e reexplicam o tratamento.
Questiono o porquê de tanta repetição. A senhora não é um caso típico de MAC , me diz a última delas.
Normalmente, são pacientes vulneráveis, alcoolistas, moradores de rua, e temos que checar se são capazes de fazer o processo sozinhos. É o protocolo .
“Ah, e não pare o tratamento”, arremata. “ Nós sabemos onde você mora .” Eu rio. Ela não.
A MAC tem um poder enorme de contaminação hospitalar, diz o cirurgião vascular ao decidir pela suspensão da cirurgia para tratamento de varizes que planejamos por meses. Virei uma questão sanitária .
Passo a tomar três antibióticos, que se somam a mais dois antialérgicos para combater uma urticária implacável, reação aos medicamentos.
São nove comprimidos ao dia , em cinco horários diferentes. Separo tudo certinho, numa tentativa de não me perder.
São de 12 a 18 meses de tratamento, com consultas trimestrais. Aguentei um ano, e hoje faço outro tratamento para me recuperar dos efeitos adversos.
A tomografia final teve resultado inconclusivo. A MAC pode deixar cicatrizes no pulmão cujas manchas se confundem com as da bactéria ainda ativa.
Quase não tenho urticárias e já recuperei o cabelo que perdi durante o tratamento, mas ainda tenho hipersensibilidade alimentar .
A parte mais assustadora, porém, foi a última consulta no Clemente Ferreira. Puxando conversa, voltei a falar das possíveis origens da doença .
O médico retirou os óculos e soltou um pequeno suspiro. Veja, me explicou, antigamente era uma questão de áreas sem saneamento básico, mas a incidência tem aumentado , e estamos tentando entender o porquê.
É possível que esteja se disseminando na água da cidade. Além disso, o uso de antibióticos errados , para combater a tuberculose , podem ter fortalecido a MAC.
Ele aperta minha mão e pede para que eu volte em seis meses. As enfermeiras comem o bolo que levei com o bilhete “ Viva o SUS ”.
Descobri que preciso limpar a parte interna dos encanamentos de casa , e mesmo assim talvez não adiante. Entendi que as superbactérias são uma realidade cada vez mais concreta.
Percebi que elas podem estar se beneficiando da crise climática e de um sistema de saneamento duvidoso.
Descobri que a água nos faz iguais , ou quase, já que eu tenho condições de fazer o “ tratamento do tratamento ”.
Também senti na própria pele o valor do SUS e de um instituto de especialidade , onde as salas de espera abrigam moradores de rua, mulheres anoréxicas, adictos, tanta gente em vulnerabilidade social, mas também uma pessoa dita “ normal ” como eu.
Ali conheci como nunca na vida meus conterrâneos de metrópole , e pude compartilhar com eles algumas mazelas.
No último dia no Clemente, fiz retratos dos corredores iluminados e da grande sibipiruna do jardim. Ela também tem brotamentos em árvore, como meu pulmão . Mas, nesse caso, são sinal de saúde .
*Luciana Annunziata é escritora, pós-graduada em criatividade aplicada pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, e em escrita literária pelo Instituto Vera Cruz, em São Paulo.
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