Muito além dos ovários: entenda como a Somp impacta a saúde da mulher

Muito além dos ovários: entenda como a Somp impacta a saúde da mulher

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Cientistas e pacientes se unem para renomear a síndrome dos ovários policísticos, condição que afeta milhões de mulheres de forma sistêmica

Introdução A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) foi rebatizada como Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (Somp) por um consórcio global de especialistas. Entenda por que a condição vai além dos cistos, suas complexas repercussões hormonais e metabólicas, e os riscos de longo prazo para a saúde feminina.

Principais Tópicos A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) foi oficialmente rebatizada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (Somp). A mudança de nome reflete a complexidade da condição, que é uma desordem hormonal e metabólica sistêmica, indo além dos ovários. A Somp afeta cerca de 1 em cada 8 mulheres em idade reprodutiva, com 70% das pacientes ainda sem diagnóstico. A síndrome aumenta o risco de infertilidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, obesidade e distúrbios do sono e mentais. O tratamento envolve o uso de medicamentos, como anticoncepcionais e metformina, e a adoção de um estilo de vida saudável com dieta equilibrada e atividade física.

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) foi oficialmente rebatizada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (Somp).

A mudança de nome reflete a complexidade da condição, que é uma desordem hormonal e metabólica sistêmica, indo além dos ovários.

A Somp afeta cerca de 1 em cada 8 mulheres em idade reprodutiva, com 70% das pacientes ainda sem diagnóstico.

A síndrome aumenta o risco de infertilidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, obesidade e distúrbios do sono e mentais.

O tratamento envolve o uso de medicamentos, como anticoncepcionais e metformina, e a adoção de um estilo de vida saudável com dieta equilibrada e atividade física.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

A médica brasiliense Maju Ferreira tinha 14 anos quando chegou ao consultório de um ginecologista com uma extensa lista de queixas. A jovem nunca sabia quando a sua menstruação viria. O rosto vivia dolorido devido à acne . Pelos grossos cresciam pelo corpo. E ela ainda estava ganhando peso . Tudo isso afetava a autoestima da futura profissional de saúde.

Juana, sua mãe, havia agendado aquela consulta porque desconfiava que a garota tinha o mesmo problema de saúde com o qual havia sido diagnosticada na juventude: a síndrome dos ovários policísticos , também conhecida pela sigla SOP. E intuição de mãe raras vezes falha .

Elas fazem parte de uma multidão de 170 milhões de mulheres que convivem com a condição pelo mundo — um contingente maior do que a população da Rússia.

“Hoje, como médica, atendo muitas mulheres com esse mesmo diagnóstico e, ao mesmo tempo, muitas manifestações diferentes — há inclusive aquelas que nem apresentam os cistos nos ovários”, conta Ferreira, agora com 27 anos.

O distúrbio, de fato, vai muito além das glândulas femininas. Envolve uma desordem hormonal complexa que, no longo prazo, está relacionada a maior risco de infertilidade , diabetes e até problemas cardiovasculares . As repercussões para o organismo todo são tantas que, no fim das contas, os tais cistos nos ovários são meros coadjuvantes .

Por isso, a comunidade científica decidiu rebatizar a condição: a SOP virou Somp , síndrome ovariana metabólica poliendócrina . E que nome!

Nesta reportagem, você vai ler sobre:

Condição rebatizada

O que muda para as pacientes

Diagnóstico da Somp

O que causa a Somp?

Complicações para a saúde das mulheres

Novas classificações em discussão

De corpo inteiro

7 riscos da síndrome

Um círculo vicioso

Um tratamento global

Condição rebatizada

A decisão não é meramente técnica e foi publicada no prestigiado periódico The Lancet por um consórcio de 56 organizações acadêmicas e clínicas de todo o globo.

A nova designação é fruto de 14 anos de discussões entre especialistas e pacientes sobre como melhor representar a síndrome que afeta uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva .

Ao todo, 14,3 mil pacientes foram ouvidas sobre suas experiências e puderam dar pitaco na denominação.

A escolha de um nome que agregasse características e sintomas que vão além da possível forma policística dos ovários foi um desejo de 86% das pacientes com Somp e 71% dos profissionais de saúde envolvidos.

Termos como “endócrino”, “poliendócrino”, “metabólico”, “cardiometabólico”, “ovulatório”, “ovariano” e “reprodutivo” foram os mais mencionados nas pesquisas com o grupo. E quem bateu o martelo foram especialistas da Universidade Monash, na Austrália.

“O que sabemos agora é que, na verdade, não há aumento de cistos anormais no ovário , e as diversas características da doença muitas vezes passavam despercebidas”, justifica Helena Teede, endocrinologista que capitaneou a mudança.

Ao renomear a condição, os médicos esperam aumentar a conscientização sobre as implicações da síndrome para as mulheres e ampliar investimentos em pesquisa, diagnóstico e tratamento.

Estima-se que 70% das pacientes ainda não sabem que carregam o problema — e, portanto, não têm acesso a orientações e formas de controle. E o duro é que elas correm um risco que nem imaginam.

O que muda para as pacientes

Uma iniciativa global de grande magnitude. É como descreve a endocrinologista Poli Mara Spritzer, uma das coordenadoras da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Sbem), responsável por representar o país nas discussões do consórcio que enterrou o termo ovários policísticos.

“Apesar de ser uma doença principalmente tratada pelos ginecologistas, a Somp é também o distúrbio endócrino e metabólico mais comum entre mulheres em idade reprodutiva e pode estar associada à resistência à insulina , a alterações no colesterol e triglicérides e à obesidade ”, explica a especialista.

Para entender como tudo isso está relacionado a um dos principais problemas da saúde feminina, é preciso limpar a barra dos “cistos”. Sim, entre aspas. Afinal, essa não é a melhor forma de defini-los.

“Os tais cistos vistos nos exames de imagem são, na verdade, folículos que foram estimulados mas não amadureceram e não liberaram óvulos”, esclarece a ginecologista Mariana Granado, do Hospital Municipal M’Boi Mirim, em São Paulo, gerido pelo Einstein Hospital Israelita.

Diagnóstico da Somp

Quando um ovário com esse aspecto aparece nos exames de imagem , diz-se que se trata de uma morfologia policística — e esse é um dos três critérios de Rotterdam , os sinais que são levados em consideração para fechar o diagnóstico da síndrome.

O acúmulo de folículos também pode ser acusado pela dosagem no sangue do hormônio antimülleriano , que aumenta com a presença dessas formações.

Os outros dois critérios são a irregularidade menstrual , que deve ser acompanhada pela mulher e relatada ao médico, e o aumento de hormônios masculinos (ou hiperandrogenismo ), que é flagrado pela testagem de hormônios sexuais, além de sintomas como o excesso de pelo e oleosidade na pele e queda de cabelo.

Se a mulher apresentar pelo menos dois desses três parâmetros, ela é diagnosticada com Somp.

Ou seja, não é necessário ter os tais ovários policísticos para manifestar o distúrbio — o que justifica, mais uma vez, a troca de nome.

O que causa a Somp?

Mas, afinal, se não são os cistos, o que causa esse desequilíbrio sistêmico em um oitavo da população feminina?

A síndrome é uma condição multifatorial , que pode ser influenciada por fatores genéticos e processos inflamatórios adquiridos ao longo da vida. Um dos principais motores é a resistência à insulina .

“Nessa condição, células de tecidos como os músculos e o fígado respondem de forma deficiente à ação da insulina , obrigando o pâncreas a produzir uma quantidade cada vez maior desse hormônio para compensar a falta de eficiência”, explica o ginecologista José Maria Soares Júnior, presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

O excesso de insulina, por sua vez, desregula o trabalho dos ovários e de outras glândulas. “Além disso, inibe a produção da globulina ligadora de hormônios sexuais no fígado”, nota o médico.

Traduzimos: esse componente é um dos responsáveis por varrer a testosterona do sangue . Sem ele, o androgênio se amontoa e leva a uma série de sintomas que afetam a autoestima das mulheres.

Não para por aí: pode haver um desequilíbrio no eixo hipófise-hipotálamo , duas estruturas com o tamanho de uma noz que ficam no cérebro e exercem grande influência na produção de hormônios sexuais.

No caso de mulheres com Somp, esse desarranjo reduz a liberação do hormônio folículo-estimulante (FSH) , que impede o amadurecimento dos óvulos e prejudica a regularidade do ciclo menstrual, além de diminuir a fertilidade.

O processo também contribui para o hiperandrogenismo típico da doença, que pode ser piorado pela resistência à insulina.

Já deu para perceber como tudo está conectado, certo? “A Somp é uma condição crônica e complexa, caracterizada por um círculo vicioso de desregulação hormonal e metabólica, que aumenta o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares de forma silenciosa”, resume a ópera a endocrinologista Fabíola Satler, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

Complicações para a saúde das mulheres

Por enquanto, a mudança de nome anunciada pelo consórcio internacional não muda a forma de diagnosticar a doença nem de tratá-la. “Mas já estamos trabalhando na atualização das diretrizes sobre a identificação e manejo da síndrome, que devem ser publicadas em 2028”, adianta Spritzer.

O principal ganho da iniciativa é ajudar a população a virar uma chave em relação ao que se pensa sobre a condição.

“É importante que as mulheres saibam que a Somp aumenta o risco de adquirir uma segunda síndrome que está por trás das principais causas de adoecimento em todo o mundo: a síndrome metabólica ”, alerta a especialista.

Esse diagnóstico é definido pela presença de ao menos três destes cinco problemas de saúde: resistência à insulina, colesterol alterado, triglicérides elevados, obesidade e pressão alta .

Os números ajudam a entender o elo entre eles. Sete em cada dez mulheres com Somp têm resistência insulínica — estima-se que até 20% irão desenvolver diabetes tipo 2 e quem engravidar tem 50% mais risco de ter diabetes gestacional .

O ganho de peso também é uma realidade: metade das pacientes têm obesidade. Já a dislipidemia , ou o aumento dos níveis de colesterol e triglicérides no sangue, pode afetar até 70% delas.

Por consequência, cresce o risco de doenças cardiovasculares: há o dobro de risco de ter um AVC ou um infarto , em comparação com mulheres que não têm o distúrbio.

Novas classificações em discussão

O impacto da Somp em todo o corpo é tal que alguns especialistas já consideram distinguir as pacientes em modelos que fogem dos três critérios de Rotterdam.

E m outubro de 2025, pesquisadores chineses publicaram na revista Nature Medicine um artigo sugerindo que há quatro subtipos da síndrome .

São eles o hiperandrogênico (pacientes cujo principal desequilíbrio é o aumento dos hormônios masculinos, associado também ao aumento de gorduras no sangue e do risco de aborto na gestação); o de sobrepeso/obesidade (relacionado ao excesso de gordura abdominal e à resistência à insulina); o de globulina ligadora de hormônios sexuais (considerado mais leve); e o de hormônio luteinizante (associado a ausência de ovulação, levando à infertilidade).

De corpo inteiro

“A síndrome ovariana metabólica poliendócrina também está relacionada a uma maior predisposição a distúrbios do sono , como apneia obstrutiva , e transtornos mentais , como ansiedade , depressão e distúrbios alimentares ”, observa o endocrinologista Cristiano Barcellos, da regional de São Paulo da Sbem.

Por isso, o tratamento da condição deve ir além do uso de anticoncepcionais e demais medicamentos para tratar as comorbidades, como a metformina , recomendada em alguns casos para melhorar a sensibilidade à insulina.

“As pílulas contraceptivas são recomendadas a fim de reduzir os níveis de hormônios masculinos e os sintomas relacionados, como acne e hirsutismo [excesso de pelos] , além de proteger o endométrio”, expõe Spritzer. “Ainda assim, as mudanças de hábitos continuam necessárias.”

Colocar o corpo em movimento e ter uma alimentação balanceada ajuda a regular os hormônios, reduzir a inflamação e controlar o peso. “Faz diferença para o corpo e para a mente”, garante Maju, que se tornou fã de pilates nos últimos anos, além de manter uma dieta regrada para afastar os sintomas que a assombravam desde a adolescência.

“Eu entendo que essas mudanças são as mais difíceis de implementar, mas também são as mais recompensadoras , e acredito que, com o novo nome da síndrome, mais mulheres se deem conta da importância desse cuidado integral”, diz a médica, que compartilha seu dia a dia com mais de 3 milhões de seguidores nas redes sociais.

Não há receita de bolo para um estilo de vida saudável. A melhor opção é aquela à qual a paciente consegue aderir.

No que diz respeito à alimentação, a nutricionista Rizoneide Calazans, do Conselho Federal de Nutrição (CFN), alerta que cortar de vez alguns alimentos pode aumentar o risco de abandono do tratamento .

“É preciso ter cautela com modismos que surgem por aí prometendo resultados rápidos por meio de restrições severas de nutrientes ”, afirma.

A expectativa é que, num futuro próximo, outras opções de tratamento surjam a partir desse novo olhar para o distúrbio, que, como você percebeu, não se restringe aos ovários.

7 riscos da síndrome

O desequilíbrio hormonal não afeta só os ovários — longe disso

Por causa da ovulação irregular (ou até ausente em alguns casos), pode ser difícil identificar o período fértil. Isso se soma a alterações nos hormônios que dificultam a gravidez.

A pele oleosa e a aparição de cravos e espinhas geralmente surgem na adolescência e, sem o devido tratamento, podem resultar em manchas e perdurar na vida adulta.

Resistência à insulina

É um dos “motores” da síndrome. Mulheres com a condição têm maior risco de diabetes tipo 2 e diabetes gestacional por causa da insensibilidade ao hormônio que regula a glicose no sangue .

A alta do colesterol e dos triglicérides é outro perigo. A resistência à insulina aumenta a produção de gorduras no fígado , e, com mais partículas circulantes, sobra para as artérias.

Alopecia androgenética

A queda de cabelo é reflexo da elevação dos hormônios masculinos , assim como a acne e o excesso de pelos pelo corpo. Dermatologistas podem ajudar a mitigar esses efeitos.

Metade das pacientes apresenta excesso de peso. Elas tendem a acumular gordura visceral , aquela que fica localizada na região abdominal e é mais nociva à saúde.

Câncer de endométrio

Mais raro, o tumor está relacionado à síndrome porque a falta de menstruação expõe a camada uterina ao estrogênio por longos períodos, sem a proteção da progesterona.

Um círculo vicioso

Como o desajuste hormonal repercute pelo corpo

Produção de insulina

Esse hormônio é fabricado pelo pâncreas e permite à glicose que vem da comida sair do sangue e entrar nas células, virando energia para o organismo.

Células resistentes

Mas as células de tecidos como músculos e fígado desenvolvem resistência à insulina, o que deixa a glicose sobrar no sangue e faz o pâncreas dobrar a produção do hormônio.

Transformação em gordura

Esse processo, associado a outras alterações hormonais e metabólicas, incentiva a maior deposição de gordura, sobretudo na região abdominal, entre os órgãos.

Aumento do risco cardiovascular

A gordura visceral não é um tecido estático; libera substâncias inflamatórias que, somadas a colesterol e triglicérides, levam a obstruções nas artérias.

Impacto mental

As desordens hormonais, quando se juntam às repercussões físicas da síndrome, podem gerar irritação, mau humor e tristeza, abalando o bem-estar emocional.

Alimentação inadequada

O abalo mental, por sua vez, é mais um fator que colabora para uma dieta pouco equilibrada. Ao priorizar comida calórica e pouco nutritiva, ganham força as desregulações metabólicas.

Um tratamento global

O que contempla o controle da síndrome rebatizada

Pílulas contraceptivas diminuem os níveis de hormônios masculinos e melhoram sintomas relacionados a isso. Também controlam os sangramentos irregulares.

Dê preferência a alimentos in natura e reduza o consumo de ultraprocessados e produtos ricos em açúcar . Não restrinja nutrientes sem orientação nutricional.

Atividade física

Vale seguir a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) : fazer 150 minutos de exercícios de intensidade moderada por semana, mesclando aeróbico e resistente.

Perda de peso

A mudança de hábito se reflete na balança, e, se necessário, médicos podem prescrever medicações para auxiliar no emagrecimento, como as canetas de GLP-1 .

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